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Ex-CEO da Virgo e ex-Itaú criam startup que quer ser a “Bloomberg do crédito privado”

O mercado brasileiro de crédito privado viveu um boom na última década, se tornando uma indústria que capta mais de R$ 700 bilhões por ano com CRIs, CRAs e debêntures, presentes na carteira de grandes fundos e investidores pessoas físicas. No entanto, a infraestrutura de dados não acompanhou o ritmo do segmento. Informações descentralizadas, taxas divergentes, e falta de padronização tornaram a gestão desses ativos um desafio operacional.

Foi para resolver essa dor que Daniel Magalhães, ex-CEO da Virgo, e Edson Lopes, ex-Itaú, criaram a Vitrify, uma startup que criou uma plataforma para ser a tela de referência do crédito privado, ou, na definição dos próprios fundadores, a “Bloomberg do crédito privado”. 

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Lançada oficialmente em dezembro de 2025 após um período de testes que começou em março do mesmo ano, a plataforma consolida, limpa e padroniza dados de cerca de 10 mil papéis ativos no mercado. As fontes são diversas: B3, Anbima, CVM, agentes fiduciários e os próprios emissores.

“Esse ainda é um mercado que tem uma dificuldade de liquidez no secundário por dois motivos: os bolsões de liquidez são descentralizados e os dados estão despadronizados, o que dificulta a precificação”, explica Magalhães. “A gente quer ser essa plataforma onde os participantes buscam dados, informações e escala, sem conflito de interesse. Não queremos ser um balcão de transação, mas a tela de referência.”

A plataforma é voltada para gestores de fundos, family offices, escritórios de agentes autônomos de investimentos e outros participantes do mercado. Os sócios explicam que a Vitrify tem cinco funções principais: 

  1. Observância de portfólio: um “copiloto” que centraliza fatos relevantes, comunicados e gestão de assembleias dos papéis em carteira;
  2. Conciliação de fluxo: monitoramento de pagamentos, amortizações e resgates, com alertas sobre atrasos ou eventos extraordinários;
  3. Pesquisa: acesso rápido a documentos, covenants, garantias e lista de titulares de cada ativo que compõem os portfólios dos clientes;
  4. Busca por emissores: permite investigar qualquer emissor ou papel 
  5. Analytics: ferramentas comparativas que permitem confrontar teses diferentes e estruturas de capital. 

Além da dificuldade de encontrar os dados em fontes diferentes, a Vitrify também precisa lidar com informações divergentes. Em alguns casos, a Anbima, B3 e securitizadoras informam taxas diferentes para o mesmo papel. É possível que uma taxa seja alterada em assembleia, mas que a informação não seja atualizada em todas as pontas do mercado. 

Para resolver o problema, a empresa conta com a ajuda de ferramentas de inteligência artificial para “sempre ter uma foto final do dado que queremos usar”, explica Lopes. 

Tela inicial da plataforma da Vitrify (Reprodução)

De olho nos emissores

Embora o foco inicial seja o buy-side (quem compra o crédito), a Vitrify prepara o terreno para atender também os emissores — as empresas que tomam a dívida. A ideia é fornecer inteligência de mercado para CFOs e tesoureiros entenderem como seus papéis estão performando no secundário e como seus concorrentes estão captando recursos.

“Hoje, um emissor tem dificuldade de saber quem são os investidores do papel dele e como os concorrentes captam. Queremos prover dados para que ele chegue mais equipado para conversar com os bancos de investimento numa nova estruturação”, diz Magalhães.

Rumo aos R$ 3 milhões em 2026

A empresa é nova, mas o ritmo de crescimento projetado é agressivo. A Vitrify iniciou a monetização em outubro de 2025 e fechou o ano com uma Receita Recorrente Mensal (MRR) de R$ 50 mil.

Para 2026, a meta é multiplicar esse número por dez. “Trabalhamos com uma meta para fechar dezembro de 2026 com R$ 500 mil de MRR. Dado que a receita acumula, imaginamos faturar cerca de R$ 3 milhões ao longo do ano”, revela Magalhães. O modelo de negócios é baseado em assinaturas (SaaS) cobradas por instituição ou unidade de negócio, sem limite de usuários ou ativos cadastrados, incentivando a adoção massiva dentro das equipes.

Até o momento, a operação foi financiada com capital próprio dos sócios. No entanto, a startup prepara o anúncio de sua primeira rodada de captação em breve. O capital será destinado inteiramente ao desenvolvimento tecnológico.

“A captação é muito voltada para o uso de tecnologia aplicada ao negócio”, afirma Lopes. O roadmap inclui a criação de um centro de inovação focado em IA para aprimorar a precificação de ativos em tempo real, uma das fronteiras finais para destravar a liquidez do crédito privado no Brasil.

Com a promessa de reduzir a assimetria de informações, a startup aposta que, ao organizar a bagunça dos dados do mercado, trará mais investidores para a mesa. “A gente olha a Vitrify como uma ferramenta de expansão desse mercado. Mais dados e mais segurança trazem mais investidores e, consequentemente, mais emissores”, conclui Magalhães.

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