Ganhos com fundos de ações vão continuar? Especialistas detalham estratégias

Redação

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Os fundos de ações apresentam um desempenho excepcional desde o ano passado, com ganhos de mais de 80% nos 12 meses encerrados em 27 de janeiro. Os ganhos acompanham o Índice Bovespa, que acumulou alta de 45,70% no período, ainda com o reforço da alta de 12,91% apenas nos primeiros 18 pregões deste ano.

Mas a arrancada final aconteceu no trimestre encerrado dia 27, com o índice acumulando alta de 23,78%.

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Levantamento do InfoMoney feito com dados da Economática mostra que 20 fundos superam o Índice Bovespa em 12 meses, sendo que 15 apresentam ganho superior a 50% no período.

O levantamento levou em conta 95 fundos com patrimônio acima de R$ 30 milhões e mais de 2 mil cotistas. Na tabela abaixo estão os 15 maiores ganhos no período, que são em geral de fundos de gestão mais ativa e ações menos líquidas, como o Alaska Black, com retorno de 86,68% em 12 meses, ou o Empiricus Microcap, com 56,52%, ou alavancados, como o SPX Patriot, com 63,35%, ou o fundo de dividendos XP Investor Dividendos, com 56,35%.

Nome Gestora Cotistas Retorno 1 ano (%) Retorno 2026 (%) Retorno 1 trimestre (%) Patrimônio R$/mil
Alaska Black II Alaska Investimentos          12.748 86,68 24,73 27,65          165.022
SPX Patriot FIF Spx Capital            2.270 63,35 10,42 21,29          260.909
Bahia Am II Bahia Asset          26.865 56,61 11,51 22,02            52.778
Empiricus Microcap Alert Empiricus Asset            2.628 56,52 0,02 14,72            42.240
XP Investor Dividendos XP Gestão            6.192 56,35 10,55 15,26          536.252
XP Investor 30 XP Gestão            5.409 54,95 9,09 14,97          427.628
XP Investor Ibovespa Ativo XP Gestão            3.384 54,23 12,64 20,86            38.757
BB Bolsas Asiáticas Ex-Japão BB Asset            4.322 54,21 10,20 10,23          101.851
Trend Valor Brasil XP Allocation            6.490 53,72 9,12 21,60            51.206
Bradesco Centurion Divid. Bradesco            2.418 52,57 10,89 22,46            73.462
Ibiuna Equities Ibiuna Gestão            3.195 52,41 9,45 15,13          414.402
SPX Falcon 2 Spx Capital            3.740 52,01 4,58 11,34          721.947
ARX Income ARX Investimentos            6.829 51,77 13,16 22,19          248.148
Itaú Kinea Gama Itau Asset            4.989 51,18 13,06 20,51          229.834
BB Ações Equidade BB Asset          12.248 49,33 12,73 23,22          120.429
Fonte: Economática/Infomoney. Fundos de ações com patrimônio acima de R$ 30 milhões emais de 2 mil cotistas. Data de referência dos rendimentos: 27/1/2026.

A questão agora é saber se ainda dá para participar da festa ou ela já está no fim.

Muitos investidores temiam que, depois da alta de 2025, a bolsa brasileira parasse de subir, mas o que se vê é que o movimento continua firma, afirma Clara Sodré, analista de fundos da XP Investimentos. A explicação é que o que está acontecendo na bolsa brasileira faz parte de uma tendência global de realocação do fluxo internacional.

“É óbvio que o macro local contribui, mas essa performance que estamos acompanhando é um movimento de rotação do dinheiro para mercados emergentes que começou lá em 2025, com o tarifaço do presidente Donald Trump”, diz Clara Sodré.

Ela chama a atenção para o fato de que os fundos de ações e multimercados no Brasil apresentaram um fluxo de saídas muito relevante desde 2022, o que significa que o investidor brasileiro não está acompanhando esse movimento positivo recente da bolsa. Ao mesmo tempo, a alta das ações reflete uma atualização de valores, já que a bolsa ficou muito descontada por muito tempo.

Além da primeira linha

Clara nota que o movimento atual de alta está sendo sustentado pelos estrangeiros e pela valorização das ações mais líquidas da bolsa, mas é acompanhado por uma reprecificação mais ampla dos ativos de risco do país. “Ativos sensíveis a juros e a risco, como o setor de varejo, também estão recebendo recursos, o que faz com que a gestão ativa, que investe nesses papéis, volte a ter performance positiva perante o Ibovespa”, diz.

Segundo ela, no ano passado, o Ibovespa subiu 33,95% enquanto os fundos de gestão ativa Long Only acompanhados pela XP subiram 34,2%, perto do Ibovespa, o que mostra que a gestão ativa está se recuperando.

Com isso, fazer uma boa seleção de fundos faz toda diferença. Ela cita o fundo de fundos Top Fundos Long Only da XP, que subiu 44% em 2025.

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Novo gatilho

Para Clara, o gatilho para a alta da bolsa continuar daqui por diante é a questão dos juros no Brasil. “A perspectiva de queda de juros mais à frente deve levar a um maior fluxo local para os ativos de risco, que tende a sustentar esse movimento de alta”, diz.

Segundo ela, mesmo que o Banco Central mantenha os juros nesta semana, o mercado deve se antecipar a uma queda nas taxas longas, o que já seria um gatilho para os fundos de ações começarem a captar. Há ainda um movimento macro importante pois, se o cenário local melhora e o dólar cair, a inflação também teria menor pressão e a taxa de juros tenderia a cair mais, criando um ciclo de alta que os analistas estão chamando de “bull market silencioso”, com as ações mais sensíveis aos juros subindo e beneficiando os fundos de gestão ativa.

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Garantir os ganhos

Para Clara, a sugestão para o investidor que está pensando se deve entrar ou não em ações é investir aos poucos e ficar alocado, pois se deixar para depois pode ficar de fora de uma boa performance da classe dos ativos de risco como a atual. A recomendação é ainda reforçada pelo cenário em que crédito privado exige maior seletividade diante de prêmios de juros mais discretos.

Onda dos emergentes

O movimento de alta da bolsa brasileira no ano passado não foi isolado e acompanhou a maioria dos emergentes, que subiram até 50% em dólar, explica Luís Fonseca, gestor de ações e sócio da Nest Asset Management. E o movimento continuou nesta virada de ano.

“Há um fluxo global para emergentes e não vemos esse movimento mudando no curto prazo”, afirma Fonseca, citando a bolsa da Colômbia, que sobe 30% em dólar no ano, e a Coréia do Sul, com 20%.

Quando há esse movimento forte de entrada de recursos, as ações que sobem mais são as mais líquidas, como Petrobras, Vale, Itaú Unibanco e Gerdau, na faixa dos 15%.

Nos menos líquidos, o ganho de maneira geral é menor. Até sexta-feira, o índice de Small Caps da bolsa subia 7,90% no ano e o índice IVBX2, que reproduz o Ibovespa sem os dez papéis mais líquidos, 7,20%, enquanto o Ibovespa ganhava 11,11%. Esse ambiente é mais desafiador para o gestor, porque ninguém costuma ter só as ações mais líquidas da bolsa, especialmente os gestores de valor, explica Fonseca.

De olho na segunda linha

Olhando mais à frente, Fonseca acredita que em algum momento essa liquidez que foi para papéis mais líquidos começará a chegar na segunda linha e em ações small caps. “Mas é difícil saber quando isso vai acontecer, pode ser só depois das eleições, ou antes”, diz. “O que achamos é que agora é hora de estar nos papéis mais líquidos, que vão andar primeiro, e em meados do primeiro semestre olhar para ações menos líquidas”, recomenda. No fundo Nest FIA, Fonseca adotou uma estratégia de ações mais líquidas e conseguiu ganhos de 11% no ano.  

Fonseca observa também que a bolsa este ano sofrerá impactos fortes da eleição presidencial, que costumam começar em março, quando os candidatos estarão definidos e as pesquisas começarem a ser divulgadas, e pode levar a mudanças na tendência do mercado nos próximos dez meses.

Bolsa ainda barata

O importante, diz o gestor, é que, apesar da forte alta nos últimos meses a bolsa brasileira continua barata e teria espaço para subir mais 20% ou 30%. Ele cita a relação preço-lucro (P/L) das empresas. Quanto maior o P/L, mais caro estará o mercado. O P/L do índice MSCI Brasil, com toda alta recente, passou de 10,0 vezes para 11,5 vezes, enquanto o da Bolsa do México está em 15,5 vezes, Austrália, 20 vezes, e Índia, novo foco dos investidores, 24 vezes.

Ele reconhece que não é porque o mercado está barato que ele vai subir, mas esse é um fator de conforto para o investidor que pensa em entrar no mercado. “Quem comprar hoje um fundo de small caps ainda vai pagar um preço bom, mas aí depende do investidor, se ele pode esperar dois, três anos, não deve ser ruim”, diz.

Ganho menos óbvio

Para Fábio Murad, economista e CEO da Super-ETF Educação, apesar da recente valorização do Ibovespa, ainda existe espaço para ganhos, mas esse espaço está mais seletivo e menos óbvio. As altas recentes costumam atrair fluxo especulativo e otimismo pontual, o que pode mascarar fragilidades estruturais da economia brasileira, como volatilidade política, incerteza fiscal e ambiente tributário desfavorável no longo prazo.

Segundo Murad, o investidor precisa olhar além do curtíssimo prazo e entender que o desempenho futuro dependerá do setor e da estratégia do fundo. Fundos com maior exposição a setores ligados ao ciclo doméstico, como consumo e construção, podem se beneficiar se houver melhora nos juros e no crédito. Já fundos expostos a commodities dependerão do cenário global, especialmente da China.

Assim, ganhos adicionais podem ocorrer, mas com risco crescente. “Por isso, este é um momento oportuno para reavaliar a alocação e diversificar para fora do Brasil, tanto em termos geográficos quanto setoriais”.

Taxas também pesam

Murad explica que boa parte dos fundos ativos costuma ter dificuldade em superar o índice, especialmente em ciclos de alta rápida. Isso acontece porque muitos gestores mantêm posições defensivas, ou carregam estratégias que não acompanham o índice. Além disso, taxas de administração elevadas corroem parte dos ganhos, o que reduz ainda mais a chance de bater o índice no longo prazo.

Já os fundos indexados e ETFs oferecem uma alternativa mais transparente, barata e direta para capturar o desempenho do índice, acredita Murad.

Fundos ativos e ETFs

O Índice Bovespa segue próximo de níveis elevados, mas muitos setores e temas de mercado ainda não estão plenamente precificados, o que cria oportunidades para gestores ativos e para estratégias de replicação dos índices com custos baixos, diz Sidney Lima, analista da Ouro Preto Investimentos.

Os fundos ativos seguem tendo espaço, mas de forma mais seletiva: fazem sentido quando o gestor demonstra histórico consistente de geração de ganhos acima do mercado após descontar os custos. Mas, em muitos casos, o ETF acaba funcionando como a espinha dorsal da alocação em ações, enquanto estratégias ativas entram de forma complementar, afirma Lima.

A vez das Mid Caps

Um ambiente de queda de juros, que já é amplamente esperado, tende a favorecer principalmente as small e mid caps de alta qualidade, com balanços sólidos e níveis de endividamento controlados, afirma Rodolfo Amstalden, presidente da Empiricus Research. “Boa parte da alta atual na bolsa brasileira está relacionada ao fluxo estrangeiro, que primeiro busca empresas mais líquidas e conhecidas, mas na sequência, com corte de juros, as small caps acabam se beneficiando do movimento”, diz.

Parte desse movimento, porém, já começou, como mostra o fundo Empiricus Microcap, com ganho de mais de 50% em 12 meses. O fundo tem poucos nomes ainda bem desconhecidos, seja por menor liquidez, seja por pouca informação, explica Amstalden. “Muitas vezes pelo tamanho são empresas mais difíceis de investir para fundos de patrimônio muito grande, mas são empresas boas e líderes no seu setor de atuação”, diz.

Além disso, o fundo é uma carteira bastante concentrada, com não mais de dez ativos, e até por isso tem um prazo para resgate de 62 dias. “Atualmente temos seis ativos e não temos problema em atribuir pesos grandes a eles”, diz. Os papéis de maior peso são Estapar, de estacionamentos, e a Desktop, no mercado de fibra ótica e telecom. “Acreditamos que este ano ainda teremos muito upside”, conclui.

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