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Trump X Powell: embate pode afetar política monetária e juro futuro nos EUA?

O Federal Reserve (Fed, o Banco Central dos EUA) inicia 2026 sob um cerco que eleva a tensão na condução da política monetária. O cenário acende o alerta sobre o ritmo de corte de taxas previsto para o ano e o comportamento dos juros futuros americanos.

Desde o ano passado, o presidente Donald Trump tem pressionado o Fed a cortar juros para estimular a economia. Mas, os dirigentes têm se mantido atentos aos dados da atividade econômica e aos riscos de fazer cortes precipitados e estimular a inflação – situação que não tem agradado em nada a Trump. 

Em meio a este cenário, o shutdown americano pausou a divulgação dos dados oficiais da economia e deixou o Fed no escuro devido ao fechamento temporário das agências e serviços públicos dos EUA — evento motivado pela falta de aprovação do orçamento no Congresso. 

Atualmente, os juros dos EUA estão na faixa de 3,5% e 3,75% após corte de 0,25 pontos percentuais na última reunião, em dezembro. Os dirigentes sinalizaram uma pausa e mais um corte em 2026, a depender do desenvolvimento da economia. Trump, porém, exige reduções mais agressivas.

A incógnita cresce porque o mandato de Powell termina em maio, permitindo que Trump indique um sucessor alinhado às suas vontades. Segundo economistas ouvidos pelo InfoMoney, essa tensão política não deve antecipar as decisões sobre corte de juros até a troca de comando. O mercado observa agora se a pressão adiciona incertezas que elevem os juros futuros.

Escalada na pressão política

A pressão política escalou no início deste ano com a abertura de uma investigação criminal contra Jerome Powell. O Departamento de Justiça — visto por analistas como um braço político da Casa Branca — apura se Powell fez declarações falsas ao Senado em junho, durante depoimento sobre gastos de US$ 2,5 bilhões na reforma da sede do Fed.

A investigação testa a independência da autoridade monetária na próxima reunião, marcada para 27 e 28 de janeiro, em um embate entre o rigor técnico e a artilharia política.

Cenário econômico

Powell tenta equilibrar a taxa de juros contra um desemprego de 4,4% e uma inflação de 2,7% em 2025. Para Trump, essa inflação já permite o corte de juros. Mas dirigentes do Fed, como Neel Kashkari que foi contra o corte de dezembro, apontam a resiliência do mercado de trabalho e a inflação acima da meta como riscos.

Bruna Allemann, head de investimentos internacionais da Nomos, destaca que os dados econômicos recentes, especialmente o último payroll, já vinham apontando para um cenário bem mais claro sobre o andamento da economia. 

Segundo ela, o Fed teria “espaço e justificativa técnica” para pular a próxima reunião, mantendo os juros como estão.

Leia também: Payroll de dezembro sugere que Fed pode “pular” reunião de janeiro e manter juros

Ritmo de corte 

Antes dos ruídos institucionais, o mercado já ajustava expectativas para cortes mais lentos, segundo Allemann. “O problema começa com o fator político. O custo reputacional de cortar os juros aumenta porque o Fed precisa demonstrar que não age sob pressão”, afirma. Na prática, ela prevê uma política monetária mais conservadora e dependente de dados claros de desaceleração.

“Essa disputa deve reforçar um cenário de cortes mais tardios, ritmos mais lento e a política monetária mais conservadora ao longo do ano”, avalia.

Leia também: Dissidentes do Fed citam risco de inflação em votos contra corte de juros

Para Andressa Durão, economista do ASA, não era esperado que a Casa Branca prosseguisse com esse processo, já que Powell deixará a presidência do Fed em maio. “Neste contexto, Trump não precisaria comprometer a independência do Fed para ‘ganhar’ só alguns meses”, avalia.

Para ela, a tentativa de influência política não vai forçar o Fed a cortar juros mais rapidamente. “Ainda acreditamos em uma taxa de juros parada ao longo do ano, com alguma possibilidade de um ou dois cortes, caso o cenário econômico permita”, avalia.

Ela destaca que, mesmo com a saída de Powell em maio, o comitê de política monetária ainda será formado por “profissionais sérios, competentes e responsáveis”. 

“Ou seja, apenas se a trajetória da inflação e do desemprego abrirem espaço para novos cortes de juros ou se, de fato, a Justiça americana permitir que os membros sejam substituídos é que haverá mudança na condução da política monetária”, diz.

Juros futuros

Os juros futuros devem reagir aos riscos de ruptura institucional. “Caso as pressões aumentem e a justiça seja favorável a Trump, veremos pressão sobre as expectativas de inflação e sobre os juros”, avalia Andressa Durão.

Rafael Cardoso, economista-chefe do Daycoval, argumenta que a definição dos juros é mais sensível à nomeação do sucessor de Powell do que à pressão direta atual. Ele explica que a substituição do presidente não altera toda a composição técnica do comitê de imediato. Contudo, se Trump indicar membros alinhados ao longo do tempo, a política monetária pode se tornar “mais complacente”.

Leia também: Trump diz que próximo chair do Fed acreditará em juros bem mais baixos

“Não se trata apenas da pressão institucional ou do papel do Powell, mas da combinação de vários fatores que podem levar, mais adiante, a uma mudança na orientação da política monetária”, reflete.

Nickolas Lobo, especialista em investimentos da Nomad, avalia que a tensão política poderá se tornar relevante para a economia caso aumentem as incertezas sobre a credibilidade do Fed, tornando os ativos americanos menos atrativos e impulsionando a busca por hedges como o ouro.

Leia também: Goldman Sachs diz que ameaça contra Powell eleva temores com independência do Fed

“À medida que esse risco se torna mais presente, os ativos americanos podem se tornar menos atrativos para os investidores, reforçando a tendência de diversificação global, direcionando o capital para outras geografias ou para hedges, como o ouro”, diz.

No Brasil, o efeito pode ser a entrada de capital buscando alternativas, mas Lobo alerta: se as taxas americanas de longo prazo subirem pela incerteza política, a liquidez pode ser drenada dos mercados emergentes. “Se as taxas americanas de longo prazo subirem muito devido à incerteza política, isso pode acabar drenando liquidez de mercados como o Brasil e direcionando para outras alternativas mais seguras”, afirma.

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source https://www.infomoney.com.br/economia/trump-x-powell-juros-eua/

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