O investidor mutante: perfil e apetite por risco mudam ao longo da vida

Redação

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Uma das bases do planejamento financeiro é conhecer o perfil do investidor, o que define seu apetite por risco e as opções que melhor se ajustam a esse apetite. Mas esse perfil não é imutável. Ele vai se transformando de acordo com o tempo e as fases da vida do investidor, sua família, seus interesses e prioridades e suas experiências. E precisa ser alvo de atenção periódica para não trazer surpresas desagradáveis.

O perfil de investidor é uma ferramenta fundamental para orientar as primeiras decisões de alocação de recursos, lembra Orestes Miraglia, diretor de negócios da cooperativa financeira Credicom. “Ele ajuda a identificar como cada pessoa lida com risco, volatilidade, prazos e objetivos financeiros, mas não é estático”, observa.

Ao longo da vida, uma mesma pessoa pode transitar entre diferentes perfis, de acordo com seu momento pessoal, financeiro, emocional e profissional. “Investir não é apenas escolher produtos; é tomar decisões em um contexto dinâmico, no qual o sucesso ou o fracasso de um investimento depende de múltiplos fatores”, diz.

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Conhecimento e experiência

Ele cita alguns fatores pessoais que influenciam o perfil do investidor. O primeiro é o conhecimento técnico em finanças. Mesmo contando com o apoio de um assessor ou consultor financeiro, a decisão final deve ser sempre do investidor. Com o aumento do conhecimento técnico e da experiência prática, o investidor tende a ganhar mais segurança para diversificar sua carteira, combinando investimentos mais conservadores com outros de maior risco, buscando equilíbrio entre proteção e crescimento patrimonial.

Outro fator é o conhecimento do mercado e das instituições. “É relevante compreender onde se está investindo, avaliar a solidez das instituições financeiras, a consistência de seus balanços, o histórico de resultados e a tradição no mercado”, lembra Miraglia.

Um conselho muito adequado após o caso do Banco Master. Mesmo dentro de uma mesma instituição, produtos semelhantes podem apresentar desempenhos diferentes. E quanto maior o conhecimento do mercado, mais criteriosas e conscientes tendem a ser as decisões do investidor, explica Miraglia.

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Revisão do perfil

Para o executivo, a flexibilização do olhar sobre o perfil costuma ser recomendada sempre que há mudanças relevantes que alteram a relação entre risco, objetivos e capacidade financeira do investidor. Embora as classificações tradicionais (conservador, moderado e arrojado) sejam um bom ponto de partida, elas não devem ser encaradas como rótulos definitivos, alerta.

Ele sugere a revisão do perfil especialmente nos momentos de mudanças importantes na vida financeira, como após um aumento de renda, crescimento do patrimônio, quitação de dívidas ou maior liquidez, como o recebimento de uma herança ou um bônus, por exemplo, que podem permitir assumir mais risco ou, em alguns casos, exigir mais cautela.

Podem ocorrer também alterações de objetivos ou do horizonte de investimento. Objetivos de curto prazo demandam estratégias diferentes de metas de longo prazo, lembra Miraglia. E quanto maior o prazo, maior tende a ser a capacidade de absorver volatilidade e correr riscos.

Sustos que mudam

Há ainda a possibilidade de mudanças na tolerância ao risco após experiências de mercado, boas ou ruins, afirma Miraglia, uma vez que ganhos e perdas influenciam diretamente o comportamento do investidor. “A experiência molda a forma como ele reage às oscilações, o que pode levar a ajustes naturais no perfil”, diz.

Transições de fase de vida, com eventos como casamento, chegada de filhos ou proximidade da aposentadoria, também costumam reduzir a disposição ao risco e aumentar a busca por estabilidade e preservação patrimonial.

Desconforto financeiro

Em alguns casos, o investidor não nota as mudanças, mas passa a sentir desconforto emocional com a carteira atual. “Se a carteira gera ansiedade excessiva ou, ao contrário, é conservadora demais para objetivos de longo prazo, é um sinal claro de desalinhamento entre perfil e estratégia”, diz Miraglia.

A ampliação do conhecimento e da capacidade de decisão também pode influenciar no perfil do investidor. Cursos, assessoria qualificada e vivência prática costumam aumentar a confiança, permitindo assumir riscos de forma mais consciente e estruturada.

Perfil em evolução

Para Miraglia, a flexibilização do perfil acontece de forma natural. Um investidor inicialmente conservador que quita dívidas, aumenta sua renda e constrói uma reserva sólida pode passar a aceitar uma exposição moderada à renda variável para buscar crescimento maior.

Já um investidor arrojado que se aproxima da aposentadoria ou assume novas responsabilidades familiares pode reduzir sua exposição ao risco, priorizando previsibilidade e proteção do patrimônio. Investidores moderados por sua vez, costumam ajustar sua estratégia à medida que ganham mais conhecimento, incorporando ativos mais dinâmicos sem comprometer sua segurança emocional.

Jovem conservador

Quando o investidor começa a vida de trabalho, mais novo, ele não tem tantas responsabilidades, e pode começar focando na educação financeira, pensando nos objetivos, explica Bruna Furlanetto, especialista em Finanças da Nippur Finance. Nesse ponto, é possível ter um perfil um pouco mais arrojado, com horizonte mais longo. Mas isso não é uma regra. “Há pessoas que mesmo nessa fase da vida preferem perfis mais conservadores, enquanto formam um patrimônio maior e depois, com maior patrimônio, faz estratégias mais arrojadas”, diz.

Segundo ela, em geral, quando começa a construção da família, ali na fase dos seus 30, 40 anos, a tendência é que o investidor comece a ter uma atitude um pouco mais conservadora, com necessidade de proteção do seu patrimônio: seguros, previdência e proteção para entes queridos. “Ou para que, na aposentadoria, você possa viver de renda, ficar mais tranquilo”, acrescenta.

Durante a vida, de acordo com as opções que se faz e o que acontece, as pessoas podem transitar entre alguns perfis, explica Bruna. Mas isso não quer dizer que haja uma regra fixa. Na aposentadoria, por exemplo, nem todos se tornam conservadores. Dependendo o volume de patrimônio acumulado, é a chance de ser um pouco mais arrojado também.

“Se durante a minha vida eu senti que mudei um pouco o perfil, que eu agia de uma forma e agora ajo de outra, o importante é respeitar”, afirma Bruna. E estar sempre olhando para sua carteira para que ela consiga atender a esse perfil e constatar quando houver uma mudança.

Antídoto ao efeito manada

Segundo Bruna, o perfil é influenciado por vários fatores: idade, renda, patrimônio acumulado, estabilidade profissional, objetivos financeiros, responsabilidades familiares, experiências anteriores com investimento. E serve para evitar o efeito manada. “A primeira coisa importante é respeitar o perfil, ou seja, não é porque todo mundo está fazendo algo que eu tenho que fazer”, reforça.

É preciso entender também que perfil de risco não é uma carteira única e que dentro dela é possível ter algumas distribuições. E guardar dinheiro é o principal.

Mais exceções

A literatura traz muitos exemplos de como o perfil dos investidores muda ao longo da vida, mas na prática o que se vê são muitas exceções, explica Karolina Roma Cinti, planejadora financeira CFP da Planejar. “Há casos em que o próprio planejamento muda o perfil”, diz.

Por exemplo, em geral, o que se espera é que os jovens sejam mais arrojados, mais agressivos com o dinheiro, pois a idade permite que corram mais riscos com o tempo, ao contrário de uma pessoa mais velha.

Mas às vezes o jovem, no início da carreira, não tem uma renda disponível para isso. “Então no começo do trabalho a gente vai fazer um esforço mais educativo, para esses jovens se conscientizem em ganhar dinheiro, explicando quanto ele precisa ter de reserva de emergência e ele acaba sendo mais conservador, adquirindo conhecimento para poder então depois diversificar os investimentos dele”.

Uma situação muito comum, lembra Karoline, é, depois dos 35, 40 anos, quando já adquiriu uma maturidade profissional, já está mais estabelecida, com família formada, a pessoa começar a ter uma preocupação com o futuro. “Muitos casais e pessoas nessa idade procuram o planejamento com aquela ideia de finitude, de como se preparar com tudo que já construíram, o que conversa mais com um perfil mais moderado”, diz.

Idosos arrojados

Depois, vem a fase em que a pessoa está numa idade mais próxima da aposentadoria. “Aí eu acabo vendo dois perfis diferentes que fogem do livro texto”, diz Karoline. Mesmo que o ideal seria aquela pessoa estar numa carteira mais conservadora, com mais renda fixa, às vezes a necessidade obriga o investidor a mudar o perfil para complementar a renda.

“Vejo muitas pessoas dos 60 mais que topam mudar para um perfil um pouco mais arrojado, de colocar renda variável, mesmo que seja por meio de fundos imobiliários, ações que pagam bons dividendos”, diz.“

A gente tenta pegar esse outro conservadorismo mais arrojado para garantir um ganho extra”, diz. Mas há também casos de pessoas que já tinham essa experiência com o risco, viveram muitas crises, conhecem o mercado e mesmo assim, quando chegam na aposentadoria, abrem mão da renda variável.

Grandes eventos

Karoline lembra que os grandes eventos acabam tendo um impacto muito importante na vida financeira do cliente, inclusive na questão mais comportamental ou psicológica. Eles surgem ao concluir a faculdade, começar a trabalhar, fazer uma transição de carreira, começar a empreender, quando vem o casamento, a chegada dos filhos, quando vem a compra do primeiro imóvel e chegando perto da aposentadoria.

E há os imprevistos, uma crise financeira, uma demissão, ficar sem renda, ter de consumir o patrimônio. Esses grandes marcos acabam influenciando mais na história de vida e em como ele começa a tomar decisões e em seu perfil de risco.

Para Karoline, um fator fundamental é o investidor estar preparado para essas fases de mudança e esses eventos, não só financeiramente, mas também psicologicamente, o que se consegue com conhecimento e auxílio de especialistas. “Mais preparados, eles conseguem regular mais a emoção diante de alguns acontecimentos”, diz.

Às vezes a pessoa acaba se assustando e se tornando conservadora demais, muitas vezes porque havia feito um investimento mais impulsivo. Já a pessoa que se prepara, mesmo sendo conservadora, tende a ser mais cautelosa e analítica e absorve melhor as surpresas. “Ela consegue ficar mais tempo naquele lugar angustiante do que o outro que tomou uma decisão impulsiva.”, conclui.

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