Fundos de renda fixa pagam 1% em 2 semanas com alívio nos juros; vale entrar agora?
Redação
A guerra no Oriente Médio está mexendo com os mercados, e não poupa os fundos de renda fixa, vistos normalmente como portos seguros. No entanto, a depender da estratégia e da composição da carteira, esses instrumentos apresentam resultados bem diferentes e têm surpreendido o investidor.
Foi o que ocorreu na última semana com a expectativa de acordo entre Estados Unidos e Irã, que reduziu os juros e trouxe ganhos para os fundos de longo prazo em títulos públicos. Apesar da escalada das tensões no fim de semana, as taxas se mantiveram em baixa na segunda-feira (20) frente aos piores dias do conflito.
Os resultados dos fundos de renda fixa variam de acordo com o prazo médio da carteira (duração alta, baixa, média ou livre), o tipo de investimento, se em papéis públicos (soberanos ou simples), títulos de empresas de baixo risco (grau de investimento) ou crédito privado. No caso dos fundos de títulos soberanos de longo prazo, o ganho foi superior a 1% apenas na primeira metade do mês.
Até 13 de abril, os fundos de maior prazo e títulos públicos, os duração alta soberanos, lideravam os ganhos no ano, refletindo a queda das taxas longas com a expectativa de acordo entre Irã e Estados Unidos. Se a curva de juros se mantiver em queda, o movimento tende a se acentuar nos resultados a serem divulgados. Já os piores resultados são de fundos de crédito, por conta das moratórias de empresas, e os de investimento no exterior e dívida externa, refletindo a queda do dólar diante do real.
| Tipos de fundo de renda fixa | Rentabilidade no ano* (%) | Rentabilidade em abril* (%) |
|---|---|---|
| Duração Alta Soberano | 4,45 | 1,08 |
| Renda Fixa Indexados | 4,26 | 0,94 |
| CDI | 3,86 | 0,43 |
| Duração Baixa Crédito Livre | 3,84 | 0,41 |
| Duração Média Soberano | 3,81 | 0,44 |
| Duração Baixa Grau de Invest. | 3,79 | 0,41 |
| Duração Livre Soberano | 3,79 | 0,60 |
| Duração Livre Grau de Invest. | 3,76 | 0,56 |
| Duração Média Grau de Invest. | 3,75 | 0,41 |
| Renda Fixa Simples | 3,72 | 0,42 |
| Duração Baixa Soberano | 3,57 | 0,40 |
| Duração Alta Crédito Livre | 3,53 | 0,48 |
| Duração Alta Grau de Invest. | 3,47 | 0,69 |
| Duração Livre Crédito Livre | 3,20 | 0,30 |
| Investimento no Exterior | 3,07 | 0,60 |
| Duração Média Crédito Livre | 2,94 | 0,35 |
| Dívida Externa | -8,02 | -2,95 |
Risco menor, ganho maior
Os fundos com menos risco são os que estão indo melhor neste ano, principalmente os pós-fixados ou prefixados indexados à inflação de prazo mais curto, porque não têm crédito privado e escapam da volatilidade, que está concentrada nos títulos de prazo mais longo, afirma Evandro Buccini, diretor de Crédito da Rio Bravo Investimentos.
“Quem estava em NTN-B (papel do Tesouro corrigido pela inflação) de menor prazo ou fundo de inflação curta ganhou porque a expectativa de inflação subiu com o aumento do preço do petróleo”, explica. “Mas quem estava em fundos de inflação mais longa sofreu por conta volatilidade dos juros”, completa.
Fundos de debêntures sofrem
Já nos fundos de crédito, quanto mais curtos os prazos, menores riscos ou quanto menos debêntures e mais FIDCs ou letras financeiras, melhor o resultado, afirma Buccini. Ele dá o exemplo dos fundos para investidores qualificados, que têm uma parcela maior de investimentos estruturados, ou Fidcs, que podem ter ido melhor. Mas, segundo Buccini, os fundos que sofreram mesmo foram os de debêntures, principalmente os de infraestrutura, pelos prazos mais longos e que sofreram mais o impacto da alta dos juros e da marcação a mercado.
A essa turbulência, Buccini acrescenta os eventos de crédito, já que Raízen (RAIZ4), que anunciou uma recuperação extrajudicial, tinha debêntures de infraestrutura no mercado também. “Esses eventos de crédito acabaram pegando diretamente alguns fundos, mas indiretamente o mercado todo, pois provocaram uma volatilidade e uma pressão de venda muito grande no mercado em geral e os spreads (diferença em relação ao juro dos títulos públicos) subiram, tanto em papéis corrigidos pelo CDI quanto em IPCA em incentivados”, explica.
Resgates ainda vão aparecer
Segundo ele, há um aumento significativo nos resgates dos fundos de crédito que podem forçar os fundos a vender papéis e aumentar a desvalorização desses títulos, mexendo com o mercado como um todo. “Ninguém gosta de volatilidade quanto é para baixo, mas os resgates não são nada alarmantes”, observa. “Vamos olhar nos próximos dias, porque esses fundos de infraestrutura têm prazo de resgate por volta de 30 dias, então temos que olhar quanto de resgate já está contratado e que a gente só vai saber quando eles efetivamente pagarem”, explica.
Na renda fixa, a alta dos juros trouxe dois efeitos, diz Gustavo Assis, presidente da Asset Bank. O primeiro foi positivo, porque elevou a rentabilidade corrente dos fundos pós-fixados e de crédito bem selecionado. O segundo foi negativo, porque pressionou a marcação a mercado dos papéis mais longos e expôs com mais força o risco de crédito em empresas mais alavancadas. “É por isso que, hoje, a discussão não é só risco de inadimplência, mas também risco de spread e de fluxo, com resgates podendo ampliar a volatilidade em algumas carteiras”, alerta.
Leia mais: Resgates em fundos de crédito privado aceleram nos primeiros dias de abril
| Tipos de fundo de renda fixa | Captação em abril* (R$, em milhões) | Captação no ano* (R$, em milhões) |
|---|---|---|
| Duração Alta Soberano | 10.721 | 95 |
| Renda Fixa Indexados | -795 | 1.097 |
| Duração Baixa Crédito Livre | 3.600 | 65.251 |
| Duração Média Soberano | 752 | 2.939 |
| Duração Baixa Grau de Invest. | 437 | -1.680 |
| Duração Livre Soberano | 3.283 | 3.752 |
| Duração Livre Grau de Invest. | -340 | 18.050 |
| Duração Média Grau de Invest. | 834 | 4.142 |
| Renda Fixa Simples | 10.721 | 12.385 |
| Duração Baixa Soberano | 7.215 | 5.499 |
| Duração Alta Crédito Livre | -36 | 269 |
| Duração Alta Grau de Invest. | 864 | 4.849 |
| Duração Livre Crédito Livre | -4.826 | 26.884 |
| Investimento no Exterior | 431 | -2.424 |
| Duração Média Crédito Livre | -128 | 306 |
| Dívida Externa | 0 | -4 |
Quem está e quem quer entrar
Assis afirma que, para quem já está aplicado, se o fundo tem carteira saudável, duration (prazo médio da carteira) compatível e gestão ativa de risco, oscilações de marcação a mercado não significam, por si só, perda estrutural, especialmente quando o investidor consegue carregar a posição por mais tempo. Já para quem pensa em aplicar agora, ele diz que o ponto principal é separar prêmio verdadeiro de risco mal precificado.
“Em crédito, isso significa olhar a qualidade do lastro, diversificação, subordinação (no caso dos FIDCs, liquidez e capacidade de monitoramento do gestor”, afirma. “Em vários casos, a renda fixa ainda oferece taxas muito competitivas, e, se os juros longos caírem adiante, parte dos fundos pode inclusive capturar ganho adicional com a reprecificação dos papéis”, acrescenta.
Fuga para a simplicidade
Segundo Assis, o investidor, de modo geral, está entendendo melhor essas flutuações do que em ciclos anteriores, mas ainda reage com desconforto quando a volatilidade aparece em produtos que ele imaginava serem lineares. Por isso, há uma migração clara para estruturas mais simples de entender e para crédito mais pulverizado e previsível. “Esse movimento ajuda a explicar o avanço de produtos ligados a recebíveis e FIDCs diversificados, nos quais a lógica de retorno está mais conectada ao fluxo real da economia do que à oscilação diária”, afirma.
Surfando a Selic
No universo de renda fixa, os fundos atrelados ao CDI e de curto prazo seguem como destaques, surfando o patamar elevado da Selic, afirma André Matos presidente da MA7 Negócios. Crédito privado também performou bem, mas os spreads já se comprimiram bastante e o investidor está sendo menos remunerado pelo risco do que há um ano, o que exige mais seletividade, observa.
Saída no pior momento
Os fundos de inflação e duration (prazo médio de pagamento dos títulos) mais longa sofreram com a marcação a mercado nos momentos de abertura da curva, o que causou desconforto e resgates no varejo, observa Matos. “Boa parte dos investidores ainda confunde volatilidade de cota com perda e acaba saindo no pior momento”, alerta. Mas é justamente agora, com a Selic possivelmente no pico, que esses fundos ficam mais interessantes, destaca. “Quando o mercado começar a precificar cortes, a marcação joga a favor e NTN-Bs pagando juro real acima de 7% são uma oportunidade rara para quem tem horizonte adequado”, afirma.
O principal recado de Matos é: não tomar decisão de investimento olhando pelo retrovisor. “Quem saiu de renda fixa longa no susto pode ter perdido o melhor momento de entrada”, conclui.
Cenário construtivo
Maria Levorin, sócia responsável por Distribuição e Wealth da Multiplica, avalia que o cenário ainda é construtivo para a renda fixa. O nível de juros segue elevado em termos históricos, o que permite travar retornos reais atrativos, ao mesmo tempo em que o investidor passa a se beneficiar, de forma gradual, da normalização da curva de juros. “Nesse contexto, a alocação deve ser cada vez mais criteriosa, privilegiando gestores com capacidade de originação, análise e estruturação de operações”, diz. “É justamente nesse ponto que vemos um crescimento estrutural de estratégias como os FIDCs e os Fiagros”, afirma Maria.
A alta dos juros produziu um efeito duplo sobre os fundos de renda fixa, explica Aloisio Teles, diretor de Investimentos da 18ib. Elevou o rendimento dos produtos pós-fixados e de boa parte das carteiras de crédito privado, mas pressionou as posições mais longas por meio da marcação a mercado, mesmo que a qualidade do ativo permaneça intacta. “Foi isso que trouxe volatilidade para uma classe que muitos ainda enxergam como previsível”, afirma Teles. “Não era falha, era precificação”, acrescenta.
Ruído ou problema?
Para quem já investe, Teles diz que o ponto central é separar ruído de problema estrutural: uma carteira bem acompanhada, com duration coerente com o horizonte do investidor, pode atravessar oscilações sem comprometer o resultado no fim do caminho. Para quem pensa em entrar agora, o cenário ainda favorece a renda fixa, mas exige disciplina: uma base em pós-fixado, alguma exposição a duration com moderação e crédito privado apenas com bastante seletividade. “Em mercado, prêmio alto sem critério quase sempre traz algum custo escondido”, alerta.
Nos últimos anos, os fundos de renda fixa apresentaram bom desempenho, impulsionados pelo nível elevado de juros, diz Bruno Gonçalves especialista em renda fixa e crédito da Brave Asset. Esse cenário favoreceu especialmente os fundos de crédito pós-fixados, que capturam um prêmio adicional sobre o CDI. Mas o juros alto também pressiona empresas mais alavancadas, o que aumenta a dispersão entre os fundos — aqueles que assumiram mais risco em busca de retorno tendem a sofrer mais com a marcação a mercado e com a abertura de spreads.
Gonçalves observa que notícias envolvendo empresas de grande porte em processos de renegociação de dívida trouxeram volatilidade para os prêmios de risco, impactando a rentabilidade de alguns fundos no curto prazo. “Ainda assim, não vemos uma deterioração estrutural generalizada do crédito, mas sim um ambiente desafiador que exige maior seletividade”, afirma.
Para quem já está investido, grande parte da alta de spreads já foi absorvida, o que tende a reduzir a volatilidade mais à frente. Para novos aportes, o momento é interessante, com níveis de prêmio acima da média recente e uma relação risco-retorno mais atrativa, principalmente para os fundos que têm uma gestão ativa e foco em crédito de alta qualidade, avalia Gonçalves.
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