As eleições para a Presidência da República em 2026 tendem a repetir o cenário polarizado entre esquerda e direita visto nos últimos oito anos, mas a ausência de consenso no campo conservador pode favorecer a reeleição de Lula, segundo o cientista político e professor da UFRJ, Jorge Chaloub.
Jair Bolsonaro, que detinha a maior popularidade e intenção de votos contra Lula, está inelegível desde junho de 2023 — e a prisão decretada em 25 de novembro foi a última pá de cal em sua chance de candidatura. Sem seu nome nas urnas, Bolsonaro não teve escolha além de indicar seu filho, Flávio Bolsonaro, como representante do sobrenome.
A política de Bolsonaro sempre foi distinta das demais trajetórias parlamentares e marcadamente familiar, dando destaque ao sobrenome e à herança viva nos filhos e, em menor grau, na esposa, Michelle Bolsonaro.
Para Jorge Chaloub, a estratégia inaugurada por Bolsonaro foi uma aposta arriscada e pode não se concretizar: historicamente, a transferência de votos no Brasil tende a não eleger candidatos “substitutos”.
“Em 2018, Lula fez o esforço de transferir sua votação para Haddad, o que, apesar da derrota, foi um feito impressionante dado os números”, diz o cientista político. “É difícil construir um presidenciável, alguém que tenha muito voto numa trajetória presidencial. Isso demanda popularidade, conhecimento dos eleitores, vínculos nacionais, gente disposta a fazer campanha por você. Será o caso do Flávio?”
Chaloub também pontua que outros aliados de Jair, como Tarcísio de Freitas, podem “cooptar os votos” mesmo sem um embate direto com o candidato escolhido pelo ex-presidente, por puro alinhamento ideológico.
A última pesquisa Pulse Brasil Latam, do instituto AtlasIntel em parceria com a Bloomberg, divulgada em dezembro, indica que Flávio ainda não conseguiu, ao menos por ora, captar todo o capital eleitoral do pai, Jair Bolsonaro.
No confronto direto com o presidente Lula, o senador aparece com 41% das intenções de voto, contra 53% do petista. A diferença de 12 pontos percentuais é maior do que a observada no cenário em que Lula enfrenta Jair Bolsonaro, no qual o ex-presidente marca 46%, reduzindo a vantagem do petista para quatro pontos.
O resultado sugere que parte do eleitorado bolsonarista ainda não migrou automaticamente para o senador, mesmo após a indicação explícita de Jair Bolsonaro, que está inelegível, foi preso no último mês e não deve disputar o pleito de 2026.
A distância se mantém também quando Flávio é comparado a outros nomes do campo da direita. Contra o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), Lula tem 49% contra 45%, uma diferença de quatro pontos.
Fora do clã Bolsonaro, é justamente o governador de São Paulo que desponta como uma figura que pode herdar esse eleitorado. Tarcísio se diferencia ao apresentar uma retórica mais técnica em comparação ao bolsonarismo, mas consegue manter a base radicalizada com sua postura agressiva diante de temas como segurança pública, questões de gênero e sexualidade e posicionamento pró-anistia.
“Tarcísio sempre tentou ser um candidato moderado. E o campo mais amplo da direita olha com bons olhos para o nome dele. Ele flerta bem com uma estratégia da ultra-direita que alterna entre movimentos de radicalização e moderação. Vemos muito isso no MBL, que ora promove linchamento público de artistas em universidades, ora está sentado à mesa, engravatado, negociando na Câmara”, exemplifica.
Chaloub chama a atenção para o risco que a candidatura de Tarcísio pode trazer a longo prazo para o bolsonarismo. Na visão dele, mesmo que saia derrotado nas urnas, uma candidatura de Tarcísio que chegue ao segundo turno pode alçá-lo como novo líder da direita na visão do eleitorado.
“Tarcísio quase ganhou de Lula, assim como Bolsonaro quase ganhou em 2022. Nesse cenário, o campo da direita passa a ter uma nova liderança”, pontua. “Bolsonaro continua sendo relevante, mas perde espaço… E quando ele perde esse espaço, por mais que Tarcísio se diga defensor das mesmas bandeiras, você nunca pode garantir esse tipo de fidelidade diante do cálculo político.”
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